Um pedaço de Prazer Secreto

1. Juramento de sangue

Lá estava eu em cima do palco com um manto de seda negro olhando aquela plateia de líderes satânicos prontos para assistir minha iniciação.

Estranhamente eu estava calma, talvez por assistir a iniciação dos outros líderes, talvez porque tenha me preparado mentalmente para aguentar o ritual. Sinceramente, eu não sabia, mas estava calma.

Havia chegado a minha vez e os batuques dos tambores soavam forte no ritmo de Carmina Burana e, então, Mr. Sinistro me olhou levadamente; era engraçado como ele estranhamente me parecia extremamente charmoso. Suas mãos quentes encostaram nas minhas, ele levantou meu braço e anunciou ao público:

— Eis uma líder da ordem máxima, a única que temos no Brasil. Aplausos para ela!

Então, ouvi urros e gritos da plateia acompanhados de fortes aplausos e calmamente sorri para o Mr. Sinistro e em seguida para a plateia.

Ele com suas mãos quentes tirou delicadamente meu manto negro e me despiu e fiquei completamente nua na frente daquela multidão. Então, ele me olhou e disse:

— Nos dê seu juramento de sangue!

Eu olhei calmamente para a plateia e abri os braços porque eu queria que meu corpo fizesse o sinal da cruz, a fim de que Deus entendesse que meu juramento não era sincero, afinal eu não sabia praticamente nada da Ordem Satânica misteriosa e agora eu estava sendo compelida a fazer um juramento, que não seria genuíno.

A plateia, ao me ver de braços abertos, compreendeu isso como uma entrega absoluta à Satan, e por isso urraram com ainda mais vontade.

Pronunciei as aguardadas palavras, mas meus braços mantinham firme o sinal da cruz:

— Eu sou de Satan a partir de hoje para sempre. Eu entrego a ele minha alma. Eu renuncio a Deus, a Cristo e ao Espírito Santo. A minha única lei é seguir a minha própria vontade. Estou pronta para ser iniciada!

Enquanto dizia essas palavras meu coração sangrava. Porém, eu tinha que aguentar firme — embora as lágrimas teimassem em querer brotar em meus olhos — pelo bem da Sara. Eu não poderia confidenciar nada, tampouco poderia me desesperar. Se acontecesse qualquer dessas coisas, já seria suficiente para quebrar o pacto e perder a minha vida e a tão aguardada recuperação da minha irmã. E assim, segurei as lágrimas dolorosamente, abrindo um sorriso penoso para a plateia, sentindo em minha coluna escorrer lentamente um suor frio e tenebroso, puro receio da banheira de vermelho escuro de sangue que borbulhava em meu cérebro. Eu seria iniciada e eu ainda sabia bem pouco sobre o pacto e a Ordem.

O Mr. Sinistro sorriu com o meu juramento e me perguntou:

— E qual será seu nome?

— Diana.

—Líderes satânicos eu lhes apresento a nova líder: Diana.

Novos gritos e batuques de tambores. Em poucos segundos fui mergulhada na escura banheira de sangue. Respirei fundo e fechei os olhos com força. O sangue não poderia penetrar em mim. Esses segundos duraram infinitamente. Felizmente, o Mr. Sinistro me trouxe rapidamente à tona. Eu estava inteiramente coberta de sangue. Estranhamente minhas narinas me diziam o contrário. Eu sentia fortemente a fragrância de álcool. Sorri aliviada: a banheira era de vinho tinto.

—Vejam que belo sorriso possui a nossa líder Diana. Aplausos para ela.

Colossais urros da plateia, acolhedores de certa forma. Tive meu manto negro de volta, a qual rapidamente vesti e segui tímida para o fundo do palco.

E o ritual seguiu, despindo-se os novos líderes restantes, mergulhando-os na banheira de vinho tinto de sangue, colhendo seu juramento e apresentando-lhes o novo nome satânico a plateia voraz.

Finda a cerimônia, eu havia sido liberada daquela exposição maluca. Ficar nua na frente de uma plateia era meu pesadelo desde criança e se concretizara para meu horror. Corri para fora do palco o mais rápido que pude e respirei aliviada quando cheguei em terra firme. Estava salva. Fiquei aliviada até me lembrar do que viria depois da cerimônia: o bacanal. Meu coração voltou a bater forte e desesperadamente. Escaparia?

Percebi que o Mr. Sinistro estava me olhando, como se estivesse interessado em mim, era estranho pois eu estava gostando, ele possuía uma força de caráter, uma virilidade, que antes me assustavam, mas agora me encantavam. Como eu não havia percebido sua beleza descomunal? Estivera cega?

Antes que eu pudesse refletir a respeito dos meus novos sentimentos pelo Mr. Sinistro, as mudanças no salão começaram a acontecer. Em pouquíssimos minutos, as cadeiras automaticamente afundaram no chão, as pessoas subiram no palco ou subiram para parte mais alta do teatro; em seguida, novo barulho de motor e da parede direita do teatro saiu uma enorme placa quadriculada que cobriu todo o teatro à exceção do palco e da parte mais alta do teatro, transformando o teatro em um enorme salão. Ao longo de todas as paredes brotaram automaticamente bancos. Eu, que tinha voltado ao palco, fomos em direção ao fundo do palco, então, o palco girou e se transformou em um enorme bar.

Terminada a transformação, um frio arrepiou minha espinha, eu sabia que o bacanal rapidamente começaria e eu não queria participar. Eu senti as mãos quentes de algum membro satânico em minhas costas sobre a seda encharcada de vinho tinto e quando olhei era do próprio enviado, a quem finalmente eu podia chamá-lo por seu nome, ainda que fosse seu nome apenas na Ordem Satânica: Mantus.

— Olá Diana. Preciso me acostumar com seu novo nome.

— Olá Mantus — disse meio sem jeito considerando meus trajes regados a vinho tinto para mim absolutamente inapropriados.

— Somos proibidos de nos chamarmos pelo nome que temos fora daqui. Aliás, ninguém é obrigado a revelar sua identidade. A pessoa que você um dia foi, já não existe mais.

— Como se eu soubesse seu nome fora da Ordem, Mantus. Você nunca me disse, esqueceu? De qualquer forma, obrigada por avisar. Vou ficar de olho para ver se ninguém vai pronunciar meu nome em vão — disse sorrindo.

—Fique tranquila que quem sabe é obrigado por nossa Ordem a manter sigilo absoluto e jamais usar essa informação para beneficiar a si mesmo ou a outros ou te prejudicar. É uma regra sagrada. Espera, Diana. Como você sabe meu nome na Ordem?

—Já se esqueceu da minha visita a este casarão?

—Não, Diana. Com o tempo você entenderá que não deve revelar seu nome. Seu nome em segredo é sua proteção, inclusive proteção à magia.

— Eu vejo que tenho muito a aprender.

— Você gostará daqui. Sei disso.

— E cadê minha grande amiga? Você sabe que eu não posso falar seu nome. Não me obrigue a ter que falar — disse sorrindo com cara de sapeca.

— Lilith? Ela está no curso que temos para advogados.

— Interessante.

— Um curso onde se aprende sobre a visão satânica do Direito. Você sabe como as leis e o sistema podem ser manipulados a nos favorecer.

—Eu quase morri por minha curiosidade, bem, você sabe, eu fiquei até hospitalizada, mas consegui ouvir um pouco desse curso, e… — disse insinuando que havia escutado ao curso que o Mantus frequentava — também sobre outros cursos…

— Gostou do que ouviu? — Seus olhos brilhavam em seu rosto divinamente angelical.

— Eu não me interesso muito por Direito.

— Por quê?

— Bem, eu sigo meus próprios princípios, minhas regras, sempre fui assim. Sinceramente, eu não acredito que as leis alcancem realmente seu objetivo, tampouco acredito que as leis consigam ser tão maleáveis como nossa liberdade de pensar, decidir e agir. E eu sempre gostei de ser livre.

— Eu já imaginava — disse com seu sorriso maravilhoso olhando fixamente em meus olhos. Sim, estava claro: Mantus me desejava.

Ele cuidadosamente tirou uma mecha de cabelos do meu rosto, sorriu e disse:

— Sabe nós também não gostamos de lei e não fazemos a menor questão de respeitá-la. Porém, é incrível como se consegue rasgar o espírito da lei dentro do próprio sistema. Verdadeiramente só isso que estudamos aqui, você sabe como usar a lei para alcançar sua própria vontade, seu desejo mais particular.

Eu não sabia se era a minha nova condição de demonizada ou o quê; o fato é que eu não sentia tremedeiras, vontade de desmaiar, tampouco meu coração acelerava, apenas achava Mantus incrivelmente belo, porém não existia mais delírio algum da minha parte. Parecia que a febre que ele me causava tinha felizmente chegado ao fim.

— Mas há outras aulas aqui que irão me interessar — disse a ele francamente.

— Eu tenho certeza disso. Você acha que está pronta para ser iniciada?

— Você acha que sim, Mantus?

— Acredito que sim. Não é fácil. As provas de iniciação podem ser cruéis.

— Me conta! Como é a iniciação?

— Não posso dizer muito. É necessário que realmente seja uma surpresa para você.

— Você e seus segredos… Havia me esquecido.

— É sério. Valen… Desculpe-me, Diana.

— Cuidado. Parece que você quer dar com a língua nos dentes e quebrar meu segredo.

—Desculpe-me. Isso não se repetirá — ele disse me olhando seriamente, como se tivesse cometido um grande erro.

—Mantus, podemos ter conversas pessoais aqui?

— Depende…

— Posso saber o que faz? Onde trabalha? Quem você é?

— Perguntas relativas à minha identidade, não. Sabe, eu não me interesso em partilhar detalhes da minha vida pessoal. Não vejo objetivo algum nisso. Porém, podemos falar sobre sentimentos, experiências, conhecimento e tudo mais que quiser. Tudo que possa realmente lhe ser útil.

— Eu não gosto muito de conversa sentimental… Me desculpe.

— Não se esqueça que, se precisar desabafar, pode contar comigo — falou em tom de brincadeira.

— Obrigada, mas não o considero meu amigo.

— Que maldade! Depois de tudo que fiz para você? — disse sorrindo ironicamente.

—Acredite se quiser — disse ainda mais irônica.

Olhei a minha volta e as pessoas se beijavam, bebiam, se drogavam, transavam, alguns dançavam alucinadamente sob as batidas tresloucadas do rock que consumia o salão.

— Bem, me parece que a festa começou. Se você me der licença… — disse educadamente.

— Você não quer aproveitar e matar sua vontade e finalmente fazer um sexo esportivo comigo? — disse sedutoramente

— Lilith deixaria? — fingia preocupação.

— Não há problema algum, se for nesta festa em que a ordem é o absoluto desapego, liberdade sexual, busca simples e pura do prazer entre pessoas que se atraem fisicamente, como você e eu. Hoje a noite é de Dionísio e somos todos seus fiéis discípulos — sua voz era extremamente sensual e ele meu puxou para perto dele fazendo com que meu corpo se encostasse em seu corpo escultural e quente.

Olhei para as paredes e para o teto e havia belíssimas pinturas de Dionísio e seus colossais e consagrados bacanais. Engraçado, podia ser o medo que eu tinha no dia que ingressei ilegitimamente no casarão, mas eu não havia reparado naquelas belíssimas pinturas inspiradas no renascimento.

E perguntei curiosa:

— Vocês são seguidores de Dionísio, o Deus do vinho e das boas festas?

—Diana, minha querida, não somos seguidores de ninguém, a não ser da nossa própria vontade. Mas como já lhe disse antes, o mundo é muito mais antigo do que o cristianismo. E nesse mundo antigo nosso estimado Dionísio já nos brindava com suas festas divinas — disse abrindo um sorriso belo e sensual.

—Há muitos deuses recorrentes em diversas culturas, não é? Como Prometeu e Lúcifer?

—Exatamente. Será muito interessante você estudar todos os deuses em suas culturas e verá que o diabo é uma figura inventada pela Igreja para aterrorizar. Não é à toa que o Deus Cornífero das bruxas – influência de crenças pré-cristãs e de algumas deidades como o celta Cernunnos, o gaélico Caerwiden, o nórdico Odin ou o grego Pan – assemelha-se com a figura do diabo inventado. O chifre é um símbolo religioso desde a antiguidade. Você sabia que o altar do templo de Apolo e até da deusa Diana, cujo nome você adotou, usaram chifres em sua construção? O chifre sempre foi símbolo de potência masculina, força, proteção, fecundidade e fertilidade. Mas a igreja quis corromper esse símbolo sagrado utilizando-o no seu diabo inventado e, então, deturpá-lo para passar a ideia de que todas as religiões pagãs, anteriores ao cristianismo, fossem diabólicas. Já falamos muito sobre isso, hoje é dia de festejar — disse me lançando um olhar sensual e me apertando ainda mais contra seu corpo divinamente esculpido, preparando-se claramente para dar o bote.

Era realmente estranho e até engraçado, mas toda a vontade alucinada que eu tinha antes de agarrá-lo havia sumido completamente. Era evidente que ele continuava lindo. Porém, isso apenas não parecia mais ser suficiente. Ele já não me atraia freneticamente como antes. Já não parecia que o mundo iria acabar. Ele era apenas lindo e nada além disso. Era como se alguma coisa tivesse morrido. Era muito fácil agora recusá-lo. Ele não parecia ser o que eu realmente desejava, só tinha a beleza a me interessar e nada além disso. Muito estranho, mas Mantus perdera o encanto inebriante por completo.

Feliz com o fim da angústia, que antes me ligava a ele de forma doentia, eu pude dizer com total sinceridade:

— Não tenho interesse. Além disso, você pode até achar curioso, mas a minha vontade em participar de bacanais regados a, como você chama, sexo esportivo, não aumentou nem um pouco — disse me desvencilhando de seu corpo com desprezo.

— Como quiser — disse ele soltando-me e agarrando uma belíssima loira que o encarava já alguns minutos. Enquanto eu os via se beijando, eu me perguntava se a intenção dele era a de me causar ciúme. Acho que era pretensão demais da minha parte, pensei achando graça. Mantus estava claramente curtindo a festa. Pude perceber que ele era um grande entusiasta dos bacanais. Era justo que aproveitasse. Para quem queria curtir sem culpas, sentimentalismos e tabus aquela parecia ser a festa ideal.

Enquanto eles avançavam nos beijos e carícias, eu segui apressadamente em direção à porta do salão; eu queria sair imediatamente daquele bacanal. Sinceramente, eu não me sentia nem um pouco à vontade com as situações que eu poderia enfrentar. Mas o fato da minha vontade estar sempre em primeiro lugar pelos princípios da Ordem, me tranquilizava um pouco. Afinal, se eu não quisesse participar do bacanal, essa era a minha vontade e ponto final. Sim, era isso o que eu diria.

Estava quase abrindo a porta do salão e senti novamente uma mão quente sobre a seda molhada que me cobria. Olhei para trás e era o Mr. Sinistro.

— Não tão rápido, Diana.

— Estava justamente lhe procurando— menti descaradamente.

—Você estava saindo.

— Estava mesmo, pois não tinha lhe encontrado. — E antes que ele pudesse falar alguma coisa, eu completei: — Eu queria lhe agradecer pela condução da cerimônia. Foi ainda mais interessante do que eu havia imaginado — eu disse querendo agradá-lo, sem saber bem o porquê.

— Obrigado, Diana.

— Qual o seu nome na ordem? Já aprendi que não posso lhe chamar por seu nome verdadeiro.

—Caim.

—Bem, Caim, eu lhe agradeço sinceramente.

— Aprenderemos muito juntos — disse enquanto acariciou levemente meu rosto.

— Eu não tenho dúvidas — respondi olhando-o dentro dos olhos.

Era demais estranho, mas eu tinha gostado, além do que poderia querer, do movimento leve, macio e rápido demais de sua mão deliciosamente quente em meu rosto.

— Você está interessada?

— Em aprender?

— É… — ele disse sedutoramente, enquanto me despia com os olhos.

— Sim, estou aqui para isso.

— Você nem foi iniciada e já sabe para que veio. Sabe, Diana, você é realmente impressionante. Não é à toa que é uma líder da ordem máxima.

— Já sei?

— Sim. Muitos vêm para cá deslumbrados com a liberdade. Com a possibilidade de sentir prazeres ocultos, novas sensações. Porém pouquíssimos percebem que estamos aqui para aprender, para evoluir. Você é mesmo incrível. Valeu a luta para tê-la conosco.

— Obrigada — a palavra luta havia sido um soco em meu estômago, pois relembrei de tudo o que passei e sofri por conta aquela Ordem Satânica que agora eu fingia pertencer — Sabe, Caim, eu estou realmente ávida por aprendizado. Se você me der licença, eu…

— Não tão rápido — disse me olhando sedutoramente.

— Por quê?

—Sinceramente?

—Por favor, sinceridade Caim. Vocês já me enganaram por tempo demais.

— Diana, você precisa compreender que é uma de nós.

—Sou?

—É, claro que é. Você foi transformada.

—E o que significa ser transformada?

— Duas mudanças. A primeira é interior e é a mais importante. Essa mudança permite que você saiba sempre o que quer verdadeiramente. Travas sociais, travas preconceituosas, travas ligadas a experiências passadas, travas familiares, enfim, nenhum tipo de trava poderá agora impedi-la de ser quem você é, querer o que quer, e obter o que quer. A segunda mudança é exterior. Sua beleza é aprimorada. Você que já era linda, tornou-se ainda mais irresistível. E alguns outros detalhes que você perceberá com o tempo.

Prudentemente resolvi nada dizer sobre minha beleza, apenas sorri e disse.

—Percebi que minha pele agora é quente como a de vocês.

—Sim, você agora é quente…

—Sabe, Caim, eu estou realmente com sentimentos estranhos, diferentes certamente.

—Diana, seus sentimentos verdadeiros. Você não pode mais fugir de satisfazer sua vontade.

—Mesmo se minha vontade for ruim?

—É esse o motivo pelo qual temos tanto a aprender. Você precisa de sabedoria para lidar com sua vontade. Você não pode jamais satisfazê-la, também não pode sempre satisfazê-la, pois será escrava da sua própria vontade. Você precisa evoluir para saber quando pode seguir sua vontade desenfreadamente e quando não deve lhe dar atenção e, sim, buscar se controlar. O importante é que em seu espírito você sempre saberá o que quer e quem é.

—Então, o que eu sinto agora eu sei ser verdadeiro?

—Sempre foi possível a você saber o que é realmente verdadeiro. No fundo qualquer um sabe. Mas a vida não pensante e mecânica faz com que as pessoas se esqueçam do que realmente importa. Agora será muito difícil você se enganar, se iludir, se confundir. Você saberá e ponto final.

—Isso é interessante.

—Pode ser ótimo saber o que você realmente quer. Pode também lhe fazer sofrer se você ainda não tiver o que quer, pois não poderá se enganar ou seguir simplesmente com a vida como fazia antes. Agora você terá que lutar pelo que quer até o fim, pois não se deixará se enganar nunca mais. Você terá um maior conhecimento de si, do que realmente quer e o que realmente lhe importa. Não poderá mais ser enganada como uma marionete pelos dogmas morais e religiosos que antes limitavam sua plena existência.

—Parece ser incrível.

—Só vivendo você saberá como lidar com esse conhecimento.

—E em que parte isso me levará ao inferno?

— Não há um inferno ou um céu. O diabo, que você sempre ouviu falar, é uma invenção da Igreja, uma forma de trazer “fiéis”. Ele tampouco existe. Para nós existem os deuses, os príncipes infernais, que em cada cultura recebiam um nome diferente.

—Mantus conversou comigo um pouco sobre isso. Ele me explicou que não é à toa que o Deus Cornífero das bruxas se assemelha à figura criada do diabo. A Igreja corrompeu e deturpou os deuses pagãos e seus chifres para que passassem a representar tudo que há de mal e podre na humanidade, como se fosse possível tirar esse peso do ombro dos homens. São os homens que comentem as maiores atrocidades, mais ninguém.

—Exatamente, Diana. Aqui na Ordem você estudará diversas culturas e seu respectivo sistema religioso e você perceberá tudo o que lhe foi ocultado. Perceberá como o cristianismo apoderou-se de elementos dessas culturas, inclusive comemorações e os utilizou como se lhe fossem próprios ou os deturpou para que aqueles que não fossem cristãos, fossem recriminados.

—Eu não vejo a hora de ganhar mais conhecimento.

—Acredite aqui na Ordem não lhe faltará conhecimento. Você ganhará conhecimento em uma profundidade que você jamais sonhou.

—É o que mais quero.

—Sabe, Diana. Aqui existe a chance de você evoluir sempre se aproveitar sua vida verdadeiramente. Não se preocupe. Se preocupe em exercer seu livre-arbítrio, satisfazer suas vontades com inteligência verdadeiramente e a evoluir sempre. Esses são os três pilares da Ordem: livre-arbítrio, vontade e evolução. Sobre esses pilares que construímos nossa vida.

—São só esses os pilares?

—Sim, apenas esses pilares que nos importam. Depois dos nossos pilares, nossos grandes princípios, com também os chamamos, existem regras menores de convivência e organização da nossa Ordem. Servem apenas para organizar nossos rituais, comemorações, atividades, enfim, nada com que você precise se preocupar.

—Muitas regras?

—Não. Essas regras acompanham a tradição da Ordem e são naturais aos líderes, nem parecem regras, são muito mais nossos costumes.

—Eu entendo. Uma organização como esta precisa de um mínimo de regras para funcionar corretamente.

—Mas esses pequenos costumes jamais poderão ferir nossos pilares, tampouco poderão ferir os valores que nos são sagrados como força e honra.

—Há um mundo novo para eu conhecer. Pode parecer fácil viver de acordo com os grandes princípios da Ordem, mas sei que é um desafio.

—Você é perspicaz. Realmente parece ser fácil seguir o livre-arbítrio, não é? Mas poucos compreendem que se o livre-arbítrio for verdadeiramente exercido o poder do mundo estará em suas mãos. É o livre-arbítrio que orienta a vontade e nos torna senhores do nosso destino. Seguir sua própria vontade também pode parecer o paraíso. Sua força será testada em cada situação para que você realmente a exerça, nenhuma lei, opinião ou vontade alheia poderão influenciá-la. Você faz suas leis, conforme seu conhecimento e sua vontade. E evoluir sempre já pressupõe que seja uma tarefa árdua. Mas nunca negligenciar a evolução é ainda mais difícil. Porém, quando o líder satânico compreende seu potencial divino, a busca à evolução torna-se prazerosa.

—Caim, obrigada. Antes de ser iniciada busquei tanto compreender mais sobre a Ordem, sobre o significado do pacto, mas não fui bem sucedida.

—Eu imaginava que você quisesse saber mais sobre a Ordem. Não se preocupe haverá muito tempo para você assimilar nossos princípios e nosso conhecimento.

—Caim?

—O que é?

—O que você realmente queria dizer sinceramente é que eu era uma de vocês? Era só isso?

— Não. Diana, eu quero você — disse me olhando nos olhos com sinceridade.

Eu nunca imaginei o Mr. Sinistro, agora Caim, como um homem sedutor, mas a verdade é que eu devia estar cega antes. Caim era extremamente charmoso e incrivelmente sedutor. Seu jeito sinistro agora me atraía. Diferentemente do enviado, Mantus, cujo corpo e beleza eu cobiçara, a verdade é que meu espírito sentia-se extremamente atraído pelo jeito forte, viril e misterioso de Caim. Não tinha como eu negar. Ele era extremamente charmoso e irresistivelmente um verdadeiro homem, sentia seu caráter pelo seu olhar firme, por sua voz tranquila, suave e direta e por suas mãos acolhedoras e protetoras. Sim, ele me passava paz e segurança.

Era engraçado como antes seus quarenta e poucos anos bastaram para que eu o descartasse de plano e agora isso parecia de nada importar. Realmente minha vontade libertara-se dos preconceitos castradores e irracionais. Ele passou a exercer um fascínio sobre mim em cada palavra sussurrada e se tornava praticamente impossível recusá-lo. Eu só conseguia pensar em beijar seus lábios. Eu o queria muito.

— Engraçado nunca tinha pensado em você dessa maneira. Sem querer ofendê-lo, eu sinceramente acreditava que você não fosse meu tipo.

— E agora? — olhou-me sedutoramente.

— De alguma forma é diferente — disse com sinceridade — Hoje está tudo diferente. Como eu já lhe disse, eu realmente estou me sentindo e pensando de uma forma estranha e nova.

— Você saberá de hoje em diante tudo o que verdadeiramente quer em seu espírito. Essa é a maior conquista da transformação.

— Caim, isso só pode ser fascinante. Não pode ser difícil! — disse entusiasmada.

— Diana, pode ser traiçoeiro. Imagine realmente nunca mais poder se enganar. A crueldade do conhecimento perene sempre lhe dizendo a verdade. Nenhum pensamento frívolo ou sentimento otimista agora poderão lhe consolar. Você sempre saberá o que realmente quer e busca. Isso pode ser sua salvação e também sua maldição. O conhecimento sempre traz sofrimento, mas traz também sua libertação. Você será verdadeiramente livre pela primeira vez em toda sua existência agora que está transformada. O que você sente em seu coração é agora sua verdade.

—Caim, pode ser bom também. Finalmente saber o que realmente queremos. Há pessoas que passam a vida sem saber ao certo o que querem e morrem sem saber.

— Sim, é claro que é bom. Mas você não pode mais se iludir e isso poderá ser doloroso. Você terá que vivenciar para me entender. Por isso parte da iniciação é trabalharmos a dor e a sobrevivência.

— Entendo. Mas sabendo que é isso que você realmente quer acima de tudo e verdadeiramente, você pode lutar para conquistar. Isso lhe dá forças para nunca desistir.

— Sim, e essa é a essência do nosso espírito. A eterna luta para obtermos o que queremos. A eterna busca pelo conhecimento para evoluirmos e sabermos a hora de abrirmos mão da nossa vontade. Lutamos até o fim. Jamais desistimos, pois do jeito que somos nunca conseguimos esquecer ou diminuir a intensidade do que queremos. O que nós queremos, nós queremos e ponto final e enquanto você não mudar, você não mudará o que quer e só lhe restará lutar. Você só tem essa alternativa. Por isso somos guerreiros.

— Caim, eu penso que há algo de realmente bom no fato dos nossos pensamentos não terem mais poder de nos enganar. Você tem que reconhecer o incrível valor disso. De você não se trair, não se sabotar, não se entregar. Isso pode ser muito poderoso para você atingir seus objetivos.

— Sim, eu reconheço. E é por isso que somos fortes e vencedores. Você só pensa em seu objetivo. Você é capaz de tudo para alcançá-lo. Nada pode desviá-lo do que você realmente almeja. Não há paz alguma. Só há luta até você conseguir o que realmente quer.

— Você conseguiu o que você quer?

— Agora já é possível que se torne, enfim, realidade o que eu tanto desejei e desejo, mas que não dependia só de mim, dependia também de outra pessoa…

— Posso perguntar o que você tanto quer?

— Claro — disse olhando-me fixa e sedutoramente.

— E o que você tanto quer? — disse encarando-o com desejo.

— Eu sempre quis você, Diana. Somente você. E nunca consegui me enganar de que não a quisesse. Isso foi difícil. Esperar sempre é difícil.

— Mas não faz sentido. Você mal me conhece e sempre pareceu tão distante.

— Você não estava pronta, Diana. Não adiantaria em nada ter agido diferente com você. Adiantaria?

— Não, eu tinha medo só de imaginá-lo — disse em confidência sorrindo. — Realmente eu me sinto transformada, como você disse. Meus sentimentos mudaram. Você não é mais o Mr. Sinistro.

—Mr. Sinistro?

—Sim, foi o apelido que lhe dei.

—Interessante — disse sorrindo — Eu era tão assustador assim?

—Bastante, eu confesso. Mas agora meus sentimentos mudaram.

—Não mudaram.

—Não?? Mas é tudo tão incrivelmente novo.

—A diferença é que agora nenhuma trava social, moral ou religiosa pode prendê-la. Você sabe exatamente o que quer. Me diga, Diana, como você verdadeiramente está se sentindo?

— Eu me sinto mais livre. Nossos treze ou catorze anos de diferença, acredito, me afastavam de você e seu jeito sinistro e misterioso sempre me assustou bastante. Eu tinha um medo velado de você. Você me parecia perigoso. Não queria me aproximar. E agora… Sabe, é estranho, me parece que foi idiotice da minha parte. É realmente muito estranho. É incrível como eu tinha travas. Sabe, não parecia. Eu me achava livre.

—Dezesseis anos de diferença. Sabedoria e liberdade sempre juntas.

— Estou mais sábia?

— E mais livre.

— Desculpe, mas é difícil para mim realmente compreender toda essa mudança.

— Agora você sente o que realmente seu espírito deseja; faz o que realmente é de sua vontade; está livre dos tabus da sociedade; caem as amarras das ilusões sociais e você compreende o que realmente lhe importa, o que realmente você quer. É uma das maravilhas da transformação.

— Interessante. E eu quero você?

— Você quer? Só você sabe a resposta… — disse sorrindo maravilhosamente para mim.

— Quero. Sim, eu quero! O que era o medo que eu sentia de você?

Ele sorriu satisfeito ao ouvir minhas palavras. Ele parecia incrivelmente feliz. Era adorável. Ele pegou em minhas mãos, beijou o símbolo demoníaco violeta na palma da minha mão e respondeu:

— Atração.

— Eu vejo agora claramente.

— Venha aqui! — disse Caim envolvendo-me em seus braços fortes e puxando-me em sua direção.

Eu o olhei consentindo, entregando-me. Então, Caim me beijou com verdadeira paixão e eu me deixei ser loucamente beijada. Após um longo beijo eu o olhei e disse:

—Eu não me sinto à vontade aqui com todos esses estranhos. Não existe nenhum lugar reservado?

—Claro, eu entendo. Vamos à minha sala.

Saímos do salão, subimos a enorme escadaria de mármore, e, uma vez girada a chave da enorme porta dupla de madeira, nós ingressamos em uma sala enorme com direito a uma grande mesa de madeira escura para reuniões, um confortável sofá de veludo vermelho de frente para um fantástico home theater e um belíssimo bar com um balcão de mármore negro.

Ele colocou uma linda música do Cole Porter, I get a kick out of you, cantada por Ella Fitzgerald para tocar e me beijou. Seu beijo era tão intenso e avassalador que era como se me elevasse a um profundo êxtase. Suas mãos fortes e quentes me enlaçavam loucamente e suas carícias me levavam ao nirvana. Tudo que eu achara sinistro naquele homem agora me atraía irrefreavelmente. Seus quarenta e poucos anos que antes o descartavam do padrão que eu julgava adequado, agora me seduziam. Sua experiência na arte da sedução era majestosa. Eu nunca imaginei sentir prazer tão grandioso. Era como se não existisse mais ninguém no mundo, sozinhos naquela belíssima sala, apenas nós dois e nosso amor ardente, nada mais importava, eu poderia morrer naquele momento. Entreguei-me totalmente as deliciosas carícias e beijos do melhor homem que eu conheci.

Após algumas horas de êxtase extremo, aconcheguei-me em seus fortes ombros e braços. Achei graça que seu jeito sinistro tivesse me causado tanto medo, a ponto de não notar com toda clareza seu corpo colossal e sua beleza irresistível. Agora o que lhe era sinistro me atraía profundamente. Eu sentia em meu espírito sua fortaleza. Ele era para mim perfeição. Eu o admirava incrivelmente. Ele me acariciou o rosto e disse com sinceridade:

— Você não sabe por quanto tempo esperei por esse momento.

Então, voltei a beijá-lo apaixonadamente. A vontade que eu sentia era tão imensa que queria adentrar em seu espírito e ocupar seu corpo como se fôssemos só um. Eu estava absolutamente fora de controle. Nunca havia sentido nada igual. Era como se nós pertencêssemos um ao outro.

Estávamos totalmente nus no sofá e não queríamos sair dali tão cedo. Como se adivinhasse o frio que invadia meu corpo, ele acendeu a lareira a gás, pegou um delicioso e macio cobertor negro e nos esquentamos rapidamente abraçados.

Olhávamos um para o outro admirados em pura contemplação. Suspirei profundamente e disse:

— Não havia notado antes a força da sua beleza. Você é absolutamente…incrível.

—Eu a queria tanto, desde o primeiro momento que nos vimos.

— Eu estava transtornada com o acidente da Sara.

— Muito antes disso.

— Antes?

— Você deveria ter por volta de uns quinze anos e eu estava no haras do seu Tio, que também é da nossa Ordem, e você montava livremente um cavalo selvagem. Eu a amei naquele instante.

— Sim… Eu acho que me lembro de você….

Lembrei-me do belíssimo jovem que conversava com meu Tio Miguel e como ele me olhava encantado, sorrindo descaradamente para mim. Era Caim, o homem a quem eu me entregara sem pensar duas vezes pela primeira vez em minha vida. Eu nunca havia sido tão espontânea antes. Impressionante.

— Sabe, eu a amo, desde então.

— Amor? Como podia ter certeza?

— Diana, eu sabia. Eu amei sua liberdade, sua coragem, sua alegria, sua força e sua habilidade evidenciadas pelo jeito com que domava aquele cavalo rebelde, tudo. Eu a amei completamente.

— Achei que os líderes satânicos não amassem. Imaginei que vocês tivessem que ser livres integralmente, até do amor.

— Você imaginava que não amávamos? Os tabus irracionais que lhe foram enraizados a prejudicaram de enxergar livremente. O amor é um sentimento natural do homem. Por isso, é claro, que amamos. E quando verdadeiramente sentimos, é colossal, não há volta, se a pessoa a quem amamos verdadeiramente for merecedora do nosso amor. Jamais abrimos mão dele. Lutamos por ele, com honra e dignidade. Como eu já lhe disse, quando queremos algo, do fundo do nosso espírito, não há nada que possa nos convencer do contrário. E o amor é um sentimento forte e nobre que devemos cultivar.

— Então, você sempre me quis?

— E como.

— Como agüentou?

—Sou um líder satânico. Eu tenho absoluto controle sobre mim — e sorriu para mim — mas, é claro, que eu me permitia pequenas concessões de um futuro que eu queria para mim. Eu sempre estive perto de você, sempre a observei de longe. Bem, talvez não de tão longe assim… — disse brincando ao acariciar o meu rosto.

— Como nunca reparei?

— Eu sei ser invisível. Já entrei no seu quarto para vê-la dormir em sua mansão e também no seu haras. Eu adorava vê-la cavalgando em sua fazenda, praticando esportes no clube ou passeando pelo shopping. Não foi tão difícil estar perto de você, apesar dos seus seguranças.

— Caim! — disse surpresa.

— O que eu podia fazer? Eu queria vê-la.

— Mas você mal me conhecia. Como sabia que era amor? — falei surpreendida, querendo compreendê-lo.

— É muito forte a ligação que sentimos. Como eu posso explicar? Quando eu a vi cavalgando naquele cavalo selvagem senti uma admiração tão profunda. Você estava linda, mostrava sua coragem e sua força sem reservas, sua alegria era tão pura, você já era tão livre… Meu coração se invadiu com uma certeza inexplicável de que você era a mulher perfeita para mim. Era impossível não saber que era amor e que era verdadeiro. Amo-a mais que qualquer outra pessoa que eu conheço. Como líder satânico, em primeiro lugar, o meu amor é dirigido a mim mesmo, em segundo lugar ele é dirigido a você e depois de você a algumas pessoas que são realmente especiais para mim e tornam esse mundo um lugar melhor para se viver. E, Diana… — olhei nos seus olhos quando ele disse meu nome e quando nos olhávamos, olho no olho, ele disse: — você não imagina como eu te conheço. Eu sempre estive com você.

— Mas você era tão seco, tão duro comigo. Como conseguia ser daquele jeito?

— Se eu a olhasse como gostaria, falasse tudo o que gostaria, você certamente perceberia. Eu tinha que evitar, ser rude até, se fosse preciso.

— E por que eu não podia perceber?

— Só queria que percebesse quando estivesse pronta para sentir como eu me sinto. Eu sabia que devia ser recíproco meu amor, pois é tão forte, me parece tão certo que você é a mulher perfeita para mim. Mas você estava cega por suas barreiras e preconceitos. Só sentia-se atraída pelo Mantus diante da magia pesada que usamos em você. Asfixiante, não foi? — dei risada entregando com isso os desejos que nutri pelo enviado — Pois é, só agora você conseguiu enxergar. Só agora que você sabe o que realmente deseja no seu espírito. Diana, você era absolutamente cega — disse sorrindo deliciosamente…

Olhei seus lindo sorrido e tive vontade de beijá-lo mais uma vez. E o beijei. Não quis passar vontade. Após alguns minutos em que nos contemplávamos, perguntei:

— Você me disse no seu haras que tinha dúvidas se eu serviria.

— Eu só queria desafiá-la, testá-la, contrariá-la.

— Mas para quê?

— Para chamar a sua atenção. Provocá-la, pode ser delicioso, quando não é possível tê-la.

— Você achava que eu iria escapar do pacto? Você sabia que eu queria realmente escapar?

—Achava que cedo ou tarde você faria o pacto. Poderia ser até por sua própria curiosidade. E, sim, eu sabia que você queria escapar. Não é da sua natureza se deixar ser facilmente pega. Tínhamos que criar uma situação em que não houvesse escolha para você. E, bem, sua curiosidade nos ajudou.

— Se você realmente sente amor por mim porque deixou eu ser pega?

—Eu sinceramente acredito na vida que levamos. Não achava a vida que você levava digna para você. E eu acredito em medidas extremas, quando se impõe a necessidade.

—Digna?

—É, Diana, você pode tudo. Você é uma líder da ordem máxima. Faça por merecer.

—Eu preciso aprender muito, não é?

—Muito. Eu serei seu guia. Quero ajudar no seu aprendizado e na sua evolução.

—Obrigada, Caim — eu queria lhe dizer que eu sabia tão pouco sobre a Ordem, que eu o conhecia tão pouco, que eu tinha receio de quem eles eram e do que eram capazes, certamente eu não aprovei o jeito como eles buscaram me aliciar, foi tão assustador, mas, então, eu preferi nada dizer. Eu não quis atrapalhar o momento.

E, então, ele me abraçou forte e nos beijamos longamente mais uma vez. Ele me acariciou e disse apaixonadamente:

— Eu ficaria a noite inteira com você.

— Eu também, mas é melhor eu ir. Não avisei nada lá em casa — disse sinceramente. O que eu tinha dito? A verdade, pensei.

— Está certo, mas agora não fuja mais de mim!

—E quem disse que eu quero fugir? — disse sorrindo.

Ele vestiu sua calça preta e sua camisa preta e era incrível como elas caiam perfeitamente em seu corpo escultural. Era uma visão digna dos mais belos filmes de Hollywood, ele me olhando ainda nua deitada no sofá de veludo vermelho, com seus olhos brilhantes e cativantes, atrás dele apenas a luz da lareira ao som agora da voz inconfundível de Frank Sinatra cantando suavemente: I’ve got you under my skin. Era simplesmente irresistível. Ele veio e me beijou intensamente e disse:

— Vamos Diana?

— Preciso de minhas roupas.

—Estão na antessala da cerimônia, certo?

— Certo.

—Vamos lá. Vista seu manto.

Vesti o manto, ainda molhado de vinho tinto, e seguimos para a antessala da cerimônia. Estava seguindo rumo à escada de mármore, porém ele me pegou pela mão e me parou.

—Não vamos descer, Caim?

—Sim, mas vamos pela escada que existe no final desse corredor. Quero que veja as esculturas que temos aqui na Ordem.

—Eu adoro esculturas.

No corredor, Caim me mostrou primeiramente uma belíssima escultura de Dionísio, seguida por uma escultura do Titã, Prometeu. Do outro lado do corredor, uma escultura de Afrotide, a Vênus dos Romanos e de Atena, a Deusa da sabedoria. Seguindo no corredor ainda vi outras esculturas de Apolo e outra de Ares. Do lado esquerdo, estava Pã com sua flauta, rodeado de seus discípulos na floresta. Todas as esculturas eram maravilhosas.

—Essas esculturas são belíssimas — disse suspirando — Parecem autênticas.

—E algumas realmente são. Vamos dizer que nossos líderes são poderosos e acreditamos que são melhores admiradas aqui do que em museus mundanos. Mas venha ver mais — disse Caim me puxando pela mão — Veja.

E pude ver a estátua de Diana, deusa da Lua e da caça, Ártemis para os gregos, com suas flechas e um pequeno veado ao seu lado.

—Caim, tenho certeza que vi uma estátua idêntica no Louvre. Essa é uma réplica?

—Não, essa é a original — Caim sorriu provavelmente pelos meus olhos arregalados de surpresa — no Louvre você viu uma réplica.

—Como pode ser, Caim?

—Como disse, temos líderes bem influentes posicionados nos lugares certos.

—Vocês sempre me surpreendem. Há mais esculturas?

—Sim, temos muitas, espalhadas pelos salões desse casarão. Há uma sala que contém algumas esculturas e pinturas egípcias. Você quer ver?

Fomos até a sala de mármore negro e lá estavam as pinturas e as esculturas. Foi muito importante papai ter levado a mim e Sara, desde muito pequenas, para conhecer o mundo, pois isso fez com que nos interessássemos pela história de cada cultura e adquiríssemos grande conhecimento. Agora eu identificava com facilidade os deuses egípcios daquela sala.
Vi algumas pinturas e identifiquei Bastet, deusa da fertilidade, Isis, deusa da magia e da natureza, Hathor, deusa do amor e da beleza, Maat, deusa da justiça, Neftis, deusa do deserto e da morte, e, Seth, deus da violência e da guerra.

—Nossos arquétipos na cultura egípcia.

—Incrível! Há mais ainda?

—Apenas algumas peças avulsas da mitologia hindu, chinesa, nórdica, e, acredito que céltica também. Mas temos também algumas esculturas feitas por nossos próprios líderes, conceituados artistas, você também gostará muito.

—Depois quero que me leve a conhecer uma a uma com calma.

—Claro, já está tarde. Vamos descer?

Caim pegou minha mão e descemos pela escadaria de mármore nos fundos e rapidamente estávamos na antessala de cerimônias. Caim se apoiou na parede enquanto me assistia vestir minha roupa. Depois, ele, mais uma vez, veio e me beijou intensamente. Era difícil demais partir.

— Vamos? Eu tenho as chaves — ele sussurrou ao meu ouvido.

—Vamos.

Éramos os últimos no casarão o que julguei pelo enorme silêncio que tomava conta do casarão. Olhei no relógio e não me admirei, já era perto das duas da manhã. Caminhamos para a saída. Ele abriu e trancou a porta. E eu perguntei inocentemente:

—Não há alarme?

— Não precisa. Você já devia saber. — disse sorrindo de lado.

—Sim, é claro.

—Eu lhe acompanho até seu carro. — ele me abraçou.

Na porta do estacionamento mais um beijo longo. Dirigi o carro suspirando. Eu amava Caim. Como isso já seria possível? Eu deveria me sentir culpada, pensava. Era muito estranho eu não sentir culpa alguma. Havia literalmente deitado com o inimigo e ainda assim isso me parecia irrelevante. Era estranho meu jeito agora. Em outros tempos eu estaria me contorcendo de culpa e remorso, porém agora eu sorria feliz pela deliciosa noite que eu havia tido. Tentava justificar minha absoluta ausência de decência no fato de eu ser solteira, dele ser irrecusável, de ter sido o melhor homem que conheci, no fato de eu ter que interpretar um papel dentro do casarão e, na verdade, eu sabia que aquilo tudo era uma grande bobagem. Eu o quis e pronto. Ele era perfeito, possuía todas as qualidades que eu admirava. Essa explicação agora me bastava. No fundo, eu não tinha mais dúvida alguma que eu fora transformada, que eu era livre para seguir minha vontade até o fim. Sorri satisfeita. Era bom viver livre de culpas.

Como poderia seguir a vida na Ordem Demoníaca? Um suor frio percorreu lentamente minha coluna. Não sabia o que fazer. Será que agora minha alma estaria definitivamente perdida após minha transformação? Teria volta? Será que minha alma que estava em jogo realmente ou isso era mesmo mais uma história de terror contada pela Igreja para manter seus fieis como Mantus alertara? Mantus havia me dito que eu era importante, tal como uma peça pode ser relevante em um jogo de xadrez? O que significaria isso? Não parecia que o que Mantus havia me dito tivesse algo a ver com minha alma. Teria? Será que eu conseguiria mostrar a inexistência do pacto pelo fato de não ter sido eu quem o assinou? Aliás sequer foi a Sara quem assinou, foi meramente um carimbo, copiando a minha assinatura. Sim, o pacto verdadeiramente não existia. Eu duvidava que eles aceitassem isso facilmente. Certamente, se descobrissem, Sara voltaria à tetraplegia e eu seria eliminada por traição. Eu tinha que me controlar.

Entrei na garagem com o gol blindado e, após passar pelos seguranças e entrar em casa, percebi que Sara estava sentada no escuro do enorme salão olhando nosso lindo jardim sob a luz da lua, fui até ela e sentei na poltrona ao lado.

—Olá Sara.

—Tina, onde você estava?

—Acabei demorando para voltar. Você estava me esperando?

—Você foi ao casarão, não foi?

—Sara, eu já lhe disse. Não posso envolvê-la, mais do que já a envolvi nesse negócio. Infelizmente você não pode mais saber de nada. Desculpe-me por tê-la envolvido nisso.

—Tina, você precisa me contar. Eu estou enlouquecendo!— disse Sara soluçando.

—Calma Sara! O que é isso? Calma!

—O que houve? Você não confia mais em mim?

—Mas é evidente que confio.

—Então, me conte.

—Sara, é você quem precisa confiar em mim. Eu não posso lhe contar mais nada, já lhe disse. Aliás, lhe avisei logo de início.

—Você está saindo com ele, é isso? Pode falar!

—Saindo com quem? Do que você está falando?

—Aquele cara maravilhoso do hospital a quem eu tive que enganar representando o seu papel, fazendo me passar por você. Pode falar. Eu só quero saber para não alimentar falsas esperanças.

—Então, não alimente! Ele é perigoso. Jamais o procure. Ele não é o que parece.

— Por que? Me diga? Eu realmente preciso saber.

—Ele não é uma pessoa, quer dizer, uma pessoa boa. Não quero que jamais fale dele novamente.

—Eu comentei com a mamãe e ela também o achou encantador e acha que eu faria um belo par com ele. Ninguém é perfeito, Tina. Ele pode ser bom para mim. Como você tem certeza que ele não é bom para mim?

—Sara, você precisa confiar em mim, por favor. Prometa que não falará dele nunca mais. Prometa, por favor. Ele não é o que parece. Eu juro. Eu dou minha palavra.

—Eu não prometo! Ele é meu anjo, você não entende!!! — E saiu correndo aos soluços pelo salão para a escadaria de mármore.

O que estava acontecendo? Perguntei a mim mesma assustada. Eu sabia a resposta: Sara estava loucamente apaixonada por Lúcifer!

Eu estava perdida. Meu pai poderia me ajudar. Ele sempre me ajudou muito. Fiquei imensamente triste quando pensei que meu pai devia ter assistido ao juramento de sangue e tudo que se seguiu após isso. Me senti mal e devastada. Além de Deus, eu havia traído a meu pai. Meu amado pai. Fiquei pensando nele para que ele aparecesse e eu pudesse conversar com ele como havia feito outras vezes em que estive triste ou perdida, mas nada aconteceu, ele não quis aparecer. Chorei sozinha na escuridão do salão.

37 respostas para Um pedaço de Prazer Secreto

  1. Milena disse:

    aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaameeeeeeeeeeeeeeei
    quero a continuuuuuuuuuuuuuuaçãoooooo ai ai ai

  2. Kamila disse:

    Eliane, esse pedaço do primeiro capítulo esta fantástico!
    Muito sucesso com esse novo livro!

    Beijos, Kamila.

  3. Um e-mail nunca foi tão comemorado como este que você acabou de enviar Eliane. Depois dessas semanas que você postará um pedaço de Prazer Secreto vai ser complicado esperar :/ Este trecho só aumenta a vontade de terminar a história de Valen…, Diana.

  4. Roberta disse:

    QUERO MAAAAAIS!! hahaha
    Tá muito bom! 😀

  5. Ahhhhhhhhhh! Está ótimo. Estou muito curiosa e aguardando ansiosamente pela outra parte 🙂

    Bjss

  6. Nanda disse:

    [aaaaaaaaaaaaaa] preciso de maiiiis *-* HUAEHUAHE Mantus ❤

  7. ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh quero muito a continuação

  8. Cassia disse:

    Ah eu simplesmente devorei Pacto Secreto e com certeza prazer Secreto vai ser mais emocionante e atrativo é essa a perfeição que encontro em sua escrita.

    Parabéns Eliane

  9. Saber que isso é apenas o primeiro capítulo é tão… bom! Tem tanta coisa sobre a Ordem que, como Diana, eu quero saber. Fico imaginando tais regras, ou outras coisas que está para acontecer. Quero Prazer Secreto logo :/

  10. Samantha disse:

    Meu Deus, eu preciso de mais, *-* Esse pedacinho de primeiro capítulo me deixou ainda mais curiosa do que eu já estava, ;OO Tomara que a Novo Século aceite publicar Prazer Secreto, e logo, hein! IAHSIUAHIUHS Muito bom, \õ/

    Beijos,
    Samantha
    Books and Other Things

  11. “Há pessoas que passam a vida sem saber ao certo o que querem e morrem sem saber.” – E não são uma ou outra que morrem sem saber o que queriam e o que tinham que fazer!!

    “O amor é um sentimento natural do homem.”

    Cada vez mais quente .. e pensar que é só o começo..

  12. Swan disse:

    To Adorando!!!!!!! Prazer Secreto tem q ser publicado logo!!!!!!!!! *-*

  13. kittygabe disse:

    Meu Deus do Ceu! Quem diria, Mr Sinistro, hein?!

    Esse pedacinho me deixou com uma vontade louca pela continuacao!

    Como eu disse, todo mundo entrando nos Contatos do site da Novo Seculo para pedir, exigir, a continuacao! 🙂

  14. História safadinha…. hsauashaushau!
    Mto boom!

  15. Rebecca disse:

    Concordo com os comentários, eu não só quero, mas PRECISO da continuação ahushuas e esse pedaço me deixou ainda mais curiosa. Aiiii VAI NOVO SÉCULO PUBLICA LOGOO! *-*
    P.S. Não sou como a Rebeca do livro hem? asashuashu

  16. Israel disse:

    Essa série vai virar filme, digno de uma produção do tipo Senhor dos Anéis

  17. Já falei que uma das coisas que mais gosto, é a quantidade de informações, como por exemplo, a parte da mitologia.

    Triste é saber que semana que vem não tem mais a continuação :/

  18. Effy disse:

    Nossaaa!! Se esse é o primeiro, imagine os demais..

    haha viu enviado ou melhor Mantus rs.. Mr.sinistro ein, parece que de sinistro não tem nada hehe.. É torturante esperar pela continuação..

    Parabéns Eliane!!
    Beijos ^^

  19. EUUUU QUEROOOOOO LER LOGO ESSE LIVROOOOOOOO\O/

  20. Keh-chan disse:

    Prazer Secreto, Prazer Secreto! Eu quero muito! Adorei seu livro e aguardo fervorosamente pela continuação.

    Atenciosamente, Kézia. s2

  21. Michelle disse:

    Torcendo imensamente para que essa continuação seja publicada!
    Amei Pacto Secreto, e quero muito saber o que vem a seguir!

  22. thais fbf disse:

    MEU DEUS O QUE FOI ISSO???

    to morrendo aki!! lança looogo esse livrooooo
    nunca imaginei a tina com o mr.sinistro ‘o’
    achava ela com o mantos tao fofinho *_*

  23. Pingback: Eliane Quintella divulga trecho de “Prazer Secreto” : Lendo e Vendo

  24. POLLYANNA disse:

    Nossa! Adorei….
    Torcendo muito!

  25. Oi Eli!
    Li o capítulo todoo! Amei*
    Quando estava bem empolgada..kkk…acabou! Snif…
    Que venha logo Prazer Secreto! Super Ansiosa!!!
    Um Beijo*

  26. alessandra disse:

    Quero mais!! Quero logo!!! kkkkkkkk

    bjkasssssss

  27. Pingback: Psychobooks » Resenha: Pacto Secreto

  28. Também quero logo ler o próximo!!!! 🙂

  29. Bruna disse:

    Nossa,como faço pra entrar na Ordem?!

  30. Pingback: Minha Estante » Novidades literárias #5

  31. Lili Silva disse:

    Cade o outro livro???Rs Eu e todos queremos!!

  32. Depois que eu li “Pacto Secreto” pela 4º vez, sim, eu li quatro vezes, fiquei com mais vontade de ler “Prazer Secreto”.

    Eli, nos dê uma luz…rs

    Alef

  33. Lili Silva disse:

    Eliane,

    Alguma novidade? Quando vai lançar para a gente???

  34. Pingback: Crítica de Pacto Secreto | Ler Imaginar

  35. karina vieira disse:

    Por favor preciso saber se o 2° livro já foi lançado, ou se já tem uma previsão de quando irão lançar

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